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terça-feira, 3 de maio de 2016

AS OUTRAS CORES DO ARCO-ÍRIS


*Rangel Alves da Costa


Comumente se diz que o arco-íris - aquele fenômeno óptico e meteorológico avistado quando a luz solar incide sobre gotículas de chuva - é formado por sete faixas nas seguintes cores: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil e violeta.
Contudo, comprovado está que as reais cores não se resumem apenas a sete. E são mais, muito mais, tantas quantas o olho humano deseje enxergar. Com efeito, se é olho humano que divide o arco-íris em faixas e dá a cada uma delas uma cor diferente, segundo a tabela de cores, bem poderia se esforçar um pouco mais para compreender que há um entrelaçamento de cores, de forma sutil, gerando muitas tonalidades.
Por exemplo, sabe-se que a junção de cores vai formando outras cores e que uma mesma cor possui diversas tonalidades, e sendo assim não há como dizer que o vermelho termina ao começar o laranja ou que o verde, vem, nitidamente, após o azul. Antes que o vermelho adentre ao laranja, outras cores já estarão se formando, numa junção de matizes, e assim por diante. Desse modo, ao se convencionar sobre as sete cores deixaram-se de lado muitas outras gradações.
Há também o problema de percepção da cor. Exemplo nítido disso diz respeito à cor da noite. Basta uma pergunta e a maioria responderá que negra é a cor da noite. Contudo, todos sabem que a cor da noite é de maior ou de menor intensidade segundo a localização da lua e o seu reflexo sobre a terra. Há noite de negrume fechado, de plena escuridão, mas também aquela dourada pelo luar. Ainda assim será noite, e de cor negra, na percepção da maioria das pessoas.
E a cor da noite para o cego, a cor do arco-íris para o cego, a cor das cores perante a visão do cego? Tudo segundo uma aprendizagem ou por um desejo íntimo de que as coisas e os fenômenos sejam de determinadas cores. Estas simbólicas, porém, vez que a paisagem escurecida no olhar não permite divisar um entardecer ou um alvorecer. Tudo parecerá noite, mas ainda assim não o será.
E tudo não será noite porque o cego doma os seus sentidos visuais a partir do acordar e do adormecer. Desse modo, a cor do dia não é o da claridade, mas da percepção de que não é noite, mesmo não diferenciando com exatidão a gradação noturna. Por consequência, a cor da noite será aquela de quando os olhos estejam fechados para adormecer. Neste sentido, sentir a escuridão significa conhecer o momento do dia segundo a sua função.
Assim, para o cego o arco-íris possui a cor da imaginação. Imagina-se a cor das outras para, numa idealização, chegar à sua fantasia. Daí que se alguém disser ao cego que um arco-íris pode ser avistado no horizonte, logo também será percebido por este, pois, conhecendo verbalmente o que seja, logo o presume perante o olhar sem cortinas. E certamente que ele avista melhor o espectro luminoso do que muita gente com perfeita visão.
Muita gente se põe à janela para chorar, para entristecer, para nada avistar diante do olhar. São pessoas aflitas, nostálgicas, saudosas, tomadas de amarguras e sofrimentos no coração e por toda a alma. Em pessoas assim, perante situações tais, tanto a paisagem verdejante como a mais bela borboleta voejando ao redor nada despertará ao olhar nem aos sentimentos bons. Avistam apenas a cortina negra que desejarem.
E o que seria o arco-íris para pessoas assim, chorosas e melancólicas? Apenas uma imagem qualquer, sem cor ou significado algum. Quando muito, apenas um vulto que se avista ao longe, mas que poderia ser uma nuvem de chuva ou um rastro de avião. O vermelho é dor, o azul é sofrimento, o amarelo é desesperança, o violeta é a pior sensação sobre tudo. E não há como juntar as cores e proporcionar uma significação diferente, alegre, prazerosa, feliz.
Daí que o arco-íris possui outras cores além daquelas ensinadas pelos livros. Não somente na sua junção de matizes, mas principalmente porque sua visão sempre depende do olhar que o avista. Não é o nada negro para o cego, mas pode ser o nada, e nada mesmo, para o olhar tristonho que mira o horizonte como um vazio de tudo.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com

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