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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

HUMANO OU APENAS HOMEM?


Rangel Alves da Costa*


Por mais que se arvorem do direito da compreensão, a verdade é que as ciências pouco conhecem da mente humana, ao menos naqueles aspectos das predisposições às ações. Nenhuma ciência pode dizer com segurança o que o ser humano é capaz de fazer em determinado momento. E assim porque o homem sempre leva consigo um arsenal perigoso e pronto a explodir a qualquer momento.
Não se trata de insanidade mental, de maluquice ou qualquer anomalia comportamental, mas simplesmente pela normalidade humana. E é normal que de repente irrompa em fúria, em violência, em transbordamento da lucidez. Sendo condicionado não só pela própria predisposição psíquica, mas também pelas afetações e influências do mundo exterior, certamente que passará a agir segundo a situação requeira.
O próprio homem não consegue se domar. Ou não deseja se refrear de forma alguma. Ele é normalmente anormal. Faz coisas para depois se arrepender, age sem pensar nas consequências, faz do instinto uma arma perigosamente, procura sempre agir com insensatez. Sempre quer ser diferente, dono demais de si, consciente demais de suas ações, o verdadeiro dono das razões do mundo. E por isso mesmo não se contenta em ser normal. Diz a si mesmo que corre o risco de ser igual ao outro, e não quer assim.
O homem é o mais irracional entre os bichos, alguém já asseverou. E com razão. Sua inteligência pouco ajuda na ação e no pensamento, sua racionalidade geralmente conduz para o caminho mais duvidoso, seu conhecimento não é garantia de compreensão das coisas mais lógicas. Sabe que está errado e faz, sabe que sofreu com o erro e reincide, sabe que de nada adianta agir assim, mas vai incorrendo sempre nos mesmos erros. Reclama da vida e se nega a aproveitá-la, reclama de tudo e pouco faz para mudar a situação.
Talvez seja a dor e o sofrimento o que mais provoca contentamento ao ser humano. Não consegue viver em paz, em comunhão, construindo caminhos. Parece levado a não aceitar paz de espírito, fortalecimento da alma, bonança interior. Contradiz a tudo e acaba chamando para si os males do mundo. E então faz da dor e do sofrimento dois grandes amigos com os quais dialogo os infortúnios e as mazelas. Mas sempre se fazendo de vítima, jogando a culpa nos outros ou no mundo, jamais reconhecendo sua imprestável semeadura.
E quais as características mais apropriadas ao homem? Egoísmo, vaidade, arrogância, soberba, truculência, inimizade, presunção, falsidade, ironia, ambição, mentira, esperteza. Não que se pretenda negativar o ser humano, envolvê-lo de invirtudes, mas porque ele próprio tudo faz para ser assim. Por que se acha num meio de feras, para não ser presa tem de se mostrar máxima ferocidade. Então vai se utilizando de todas as armas que puder dispor. E nenhuma destas armas é chamada de respeito, reconhecimento, companheirismo, altruísmo.
Para conhecer o homem basta que se rebusque o exemplo da criação. Deus deu-lhe a existência e uma série de virtudes para que progredisse na vida e fizesse do mundo um lugar de compartilhamento, para progredir e alcançar a felicidade. E o que ele fez com as dádivas recebidas? Guerras, assassinatos, monstruosidades, aberrações de toda ordem. E preferiu tomar outro rumo não porque o mundo e a vida tenham lhe mostrado outros caminhos, mas simplesmente porque não se contenta com a paz, com o amor, com a união.
Quem é capaz de tirar a própria vida pouca importância dá à vida do próximo. Quem se olha no espelho e não se contenta com a feição que possui não pode olhar o próximo e mostrar um sorriso. Quem se esquece de si mesmo para se preocupar com a vida do outro não gosta nem de si nem de ninguém. Quem já acorda descontente com tudo e só falta morder quem encontrar pela frente não pode viver em sociedade. Mas assim é o homem.
O homem é assim por um desejo próprio. Come o que não pode comer, bebe o que não deve beber, faz o que é proibido fazer. Quer dizer, faz tudo ao contrário. Mas talvez o contrário seja o próprio homem. O outro, aquele homem da Criação, só volta dos escondidos quando a vileza presente abre a boca para mentir. Não parece sequer ser humano, mas santidade. E aí mais um ardil de um sórdido e incorrigível caráter.


Poeta e cronista
blograngel-sertao.blogspot.com 

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